EAD é a solução para quem?

No dia 11 de Março de 2020 a Organização Mundial da Saúde declarou o COVID-19 como uma pandemia mundial.
Desde então, o mundo todo tem se unido para conter a disseminação da doença que pode colocar todos os sistemas de saúde em colapso. A situação é séria, grave, e desestabiliza tudo o que entendemos como organização social.
A única forma de conter o crescimento da disseminação do vírus é o isolamento social, entre várias medias isto prevê que escolas e instituições de ensino suspendam suas atividades presenciais para evitarem aglomerações de pessoas, que atualmente, é considerado um grande risco social.
Como já dissemos, isto desestabiliza tudo o que entendemos, e construímos como organização social, e não está sendo diferente com a educação.

Muitas questões surgem desde a suspensão das atividades presenciais:

"Mas, o desenvolvimento acadêmico dessas crianças e adolescentes não ficará prejudicado se passarem muito tempo sem nenhum tipo de atividade?"
"Os alunos que tentarão ENEM neste ano, como ficam?"
"O que este atraso pode provocar na trajetória escolar?"
"Como os pais podem auxiliar os filhos nos estudos? Com qual referência?"

Gestores escolares são colocados diante dessas perguntas, e enfrentam uma forte pressão, especialmente da família do estudante, para manterem as atividades. Neste cenário, muitos tem adotado a Ensino a Distância - famoso EAD - como a solução para a educação diante da crise.
Só que é necessário refletirmos criticamente sobre esta medida, porque bem diferente do que tentam nos passar, o EAD é uma abordagem de Ensino complexa, requer muito preparo e não é algo que pode funcionar para todos.

Primeiro, é necessário compreender que não existe nenhuma regulamentação na LDB para EAD com crianças e adolescentes durante Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio.
Até hoje, o EAD não foi regulamentada para essas áreas de atuação por conta, justamente, de toda a complexidade que a modalidade implica. É certo que alguns estados e municípios já reconhecem o EAD enquanto uma possibilidade de continuar com o calendário escolar, durante esta crise, mas mesmo assim, é importante analisarmos tudo com calma.

O primeiro ponto que chamo atenção é sobre quem ocupa o papel de tutor no o EAD nestes tempos de crise. Sabemos que qualquer formação EAD possui um tutor que orienta e tira dúvidas dos alunos, quase sempre o tutor realiza encontros pessoais, as vezes a tutoria pode acontecer a distância, mas em todos os casos o tutor mantém um diálogo próximo e um olhar atento para o desenvolvimento do aluno. É inviável que o professor em si seja também o tutor. Porque ao professor cabe elaborar aulas, exercícios, provas, realizar pesquisas, corrigir atividades, entre outras demandas que já preenchem o seu tempo. As vezes, uma turma EAD com 40 alunos, pode ter 4 tutores, por exemplo, que é para orientar o estudo de forma mais individual.
Nesta crise, quem está desempenhando o papel de tutor das crianças e adolescentes que vivem o EAD?
Os pais, os avós, os tios, os seus responsáveis? Provavelmente, sim. Aliás, diante do isolamento social são as únicas figuras que poderiam desempenhar o papel de tutores. Aqui mora a nossa primeira questão; qual o nível de escolaridade destas pessoas? Sabemos que o Brasil ainda enfrenta altos índices de adultos analfabetos, e analfabetos funcionais. Será que estas pessoas estão aptas para orientar e estimular o processo de estudo do aluno? Será que é possível, por exemplo, que uma família, sem nenhum preparo consiga alfabetizar uma criança?
Se possuem um bom nível de formação e estão aptos para as atividades, estes adultos possuem tempo disponível? Sabemos que o isolamento não é sinônimo de férias, muitos pais estão realizando seus trabalhos dentro de casa, e isto exige o tempo, somado a isso também nos deparamos com as habituais demandas domésticas que também requerem tempo. É possível que a família desses estudantes estejam preparadas para tutoriar seus filhos, continuar trabalhando e administrar toda a logística doméstica da casa? Isso tudo, claro, lidando com a ansiedade e estresse que a situação provoca?

Já neste primeiro ponto, muitas famílias revelam inaptas para o EAD, mas outras conseguem gerir isto tudo. Então, é necessário refletirmos sobre outra questão. Os professores estão capacitados para ministrarem seus conteúdos nos moldes do EAD? Quais ferramentas vão utilizar? Sabem fazer uso dessas ferramentas? São ferramentas que necessitam de internet? Os professores possuem uma boa internet em suas casas? Eles gravarão vídeos, ou realizarão vídeos-aula? Eles sentem-se bem neste lugar de gravarem suas falas? A escola preparou esses professores, ou apenas lançou as obrigações? O professor possui uma dinâmica familiar que permite a dedicação de tempo para exercer o EAD?
Não existe uma resposta para estas questões, existem várias respostas, porque estamos lidando com vários contextos e realidades diferentes. Temos professores jovens, solteiros, habituados à dinâmica digital, mas também temos professoras mães-solo, professores responsáveis pela família, pelos pais idosos, professores que moram em regiões que não possuem acesso à internet, professores totalmente desabituados as ferramentas digitais. E também temos, professores com condições de tempo, conhecimento de ferramentas digitais, mas que estão -como a maioria das pessoas- abalados com esta crise, professores ansiosos, depressivos, com transtornos no sono, sem nenhuma condição de exercer a função de "educar" diante da crise. O espírito de competitividade de produção que algumas escolas estão forçando em seus professores é nocivo e precisa ser denunciado.

O professor não é um ser iluminado que está a par de tudo o que acontece. Ele também tem família, seus filhos também estão sem escola, o salário de muitos foi suspenso, ou sofreu cortes, a pressão, o medo, a insegurança, também são dilemas que o professor enfrenta, e não é justo que nós exijamos que eles continuem produzindo, como se nada estive fora do lugar.

Mas, suponhamos que em alguma realidade, o aluno tenha condições adequadas de uma tutoria, e o seu professor esteja preparado para a dinâmica da aula. Então, precisamos pensar em outro ponto deste cenário: o aluno tem condições de manter uma dinâmica de EAD?
Este aluno tem acesso à internet? Consegue administrar e gerir seu tempo de estudo? Tem uma estrutura mínima em sua casa que permita a realização das atividades?
Novamente, a resposta aqui é um grande DEPENDE. Alunos em situação de vulnerabilidade, especialmente econômica, não conseguem. Alunos com necessidades especiais também podem não conseguir dar conta de gerir o tempo de estudo. 

Diante disso tudo devemos entender que o EAD é uma possibilidade de dar continuidade, ou de amenizar os danos, mas precisamos assumir que o EAD passa longe de ser uma solução eficaz, viável e democrática. 

Se nem todos os alunos terão acesso ao EAD pensar uma educação nesses moldes é assumir o processo de exclusão de uma parcela da sociedade, e provavelmente, uma parcela desfavorecida de recursos.
Se nem todos os professores foram preparados e nem todos possuem ferramentas adequadas para ministrarem suas aulas EAD, o que teremos são aulas ineficazes, professores sobrecarregados, e um ensino pobre.
Se nem todos os alunos possuem tutores para acompanhar seu desenvolvido, o que teremos serão um monte de atividades lançadas ao ar, sendo realizadas de qualquer jeito, e muito provavelmente, de maneira equivocada.

Não queremos condenar escolas que estão adotando EAD como possibilidade para caminhar nesta crise, reconhecemos e admiramos muitas gestões que estão conseguindo levantar excelentes soluções. O que queremos é que quando formos discutir o tema EAD tenhamos uma visão de diferentes contextos, e não apenas da realidade que nos cabe. Afinal, a educação é direito de todos, logo, precisamos pensar em todos os contextos para a construção de possibilidades efetivas, e não apenas de possibilidades de "faz de conta".

Por fim, reconhecemos que muitos professores precisam lidar com o EAD e não estão aptos para tal atividade, estamos elaborando um material GRATUITO recolhendo informações que possibilitarão nortear estes professores.

Problematizar a questão e amparar os professores é a nossa forma de contribuir neste período tão peculiar que a educação escolar brasileira vive.

Por fim, fiquem em casa! É de suma importância que as escolas mantenham-se fechadas para continuarmos a conter a propagação do vírus.






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