Como você se identifica? Reflexões sobre a autoidentificação

                                                                                                               

Amanda Moreira Rocha

No Brasil, fomos e somos marcados pela desigualdade social e racial, representada pela oposição entre brancos e negros. Há uma grande discussão em torno das nomenclaturas utilizadas para classificar as pessoas não-brancas: preto/negro/pardo; e esta discussão gira em torno da carga pejorativa ou positiva de tais classificações, e a forma como são percebidas socialmente. Será que isto afeta a forma como nos identificamos?

“[...] a forma como segmentos da sociedade são classificados, do ponto de vista da percepção de traços físicos, condiciona a trajetória de vida de cada indivíduo, podendo resultar em estigmas e desvantagens para uns e capital social para outros” (PETRUCCELLI, 2013).

Portanto, a forma como nos identificamos traz resquícios desta estrutura, baseada em discriminação racial e opressão. As relações interpessoais, econômicas, políticas e trabalhistas são atravessadas por esta história, e isso reverbera na trajetória pessoal de cada indivíduo da sociedade brasileira; seja na forma de privilégios ou na ausência deles.

Retomando a questão das nomenclaturas usadas para a identificação racial no Brasil, o uso do termo “negro” sempre foi carregado de sentidos e significados pejorativos – herança da nossa história escravista – sendo, até hoje, um termo utilizado por muitos para diminuir, excluir e humilhar. Mas em contrapartida, há uma mobilização por parte dos Movimentos Negros – desde os anos 1970 – no intuito de ressignificar o uso deste termo para que este passe a ser usado num ato de orgulho e valorização da história, ancestralidade e cultura afro-brasileira e africana.

Segundo o Instituto Identidades do Brasil, “[...] no Brasil, a estrutura de classificação racial se dá por conta das nossas características visíveis.”; esta afirmação resulta de situações cotidianas onde quem tem a pele menos retinta sofre menos preconceito e quem tem a pele mais retinta e traços físicos mais característicos, sofre muito mais com a discriminação racial. Conforme pesquisas e dados do IBGE, negros correspondem ao somatório de pretos e pardos: “[...] nesse caso, pretos são considerados os que possuem a pele mais retinta e os pardos os que possuem a pele menos retinta (ou mais clara). Portanto, se identificar como negro, é um ato importante, não só por contribuir para a coletas de dados reais estatisticamente, mas também é importante como um ato político, considerando todo o peso pejorativo que este termo ainda possui na sociedade brasileira.

Mas o que tudo isto tem a ver com a escola?

A escola é o lugar onde todas as vivências sociais, culturais e históricas se refletem, onde muitas memórias serão criadas, é também o lugar onde o saber e o conhecimento permeiam as relações cotidianas. Se o racismo – infelizmente – ainda está presente em nossa cultura, na escola ele também será reproduzido e reforçado, se não tomarmos medidas que visem acabar com esta prática. A autoidentificação é importante neste contexto no que diz respeito ao processo de construção da identidade e formação de valores dos estudantes; nas suas relações interpessoais, e podem afetar a autoestima das crianças e adolescentes.

O professor, enquanto sujeito mediador nos diversos processos de formação dos estudantes, tem a responsabilidade e o dever de estar atento às situações onde a identidade racial destes seja ridicularizada e/ou alvo de práticas racistas e discriminatórias, seja por características físicas (fenotípicas) ou culturais (religiosas, indumentárias, alimentares, estéticas etc.). É papel de todos nós, que lutamos por uma educação humana, justa e igualitária, extinguir práticas que reforcem a desigualdade racial e social em nosso país, e a educação é o campo para que tais mudanças aconteçam!

 

 

Referências bibliográficas:

COSTA, H. É preto ou negro?. Instituto Identidades do Brasil, 2018. Disponível em: >http://simaigualdaderacial.com.br/site/?p=3136< Acessado em 04/08/20.

PETRUCCELLI, J. L.; SABOIA, A. L. Características Étnico-raciais da População. Classificação e identidades. Estudos e Análises. Informação Demográfica e Socioeconômica número 2. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Diretoria de Pesquisas – Coordenação de População e Indicadores Sociais. Rio de Janeiro, 2013. Disponível em: > https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv63405.pdf< Acessado em 04/08/2020.

SACRAMENTO, M. “Preto” ou “negro”? O vídeo viral que levantou um debate semântico. Portal Geledés, Agosto de 2016. Disponível em: >https://www.geledes.org.br/preto-ou-negro-o-video-viral-que-levantou-um-debate-semantico-por-sacramento/?gclid=CjwKCAjwjqT5BRAPEiwAJlBuBW1zfQHv9J6h8GV6q0ouLfoyLiQPwV0mfN4bKDGeHlVbuifO8DE9BoCFr4QAvD_BwE< Acessado em: 04/08/2020.


Comentários